Doutora Filó conversa sobre amor e limites

Assim como o amor e o afeto, as referências e os limites são indispensáveis para o crescimento saudável das crianças. Foi o que disse a médica pediatra Filomena Camilo do Vale na última edição do “Pais na Trilha”, realizada em abril. Seus conhecimentos na área do comportamento humano são fruto de anos atuando no CTI infantil da Santa Casa de Misericórdia, onde dá plantão desde 1995, e das experiências vivenciadas em seu consultório junto às famílias.

Doutora Filó, como também é conhecida, afirma que, assim como para as famílias e para as escolas, hoje, os desafios para a pediatria são outros. “Do ponto de vista intelectual, as crianças estão impecáveis. Emocionalmente, porém, estão mais frágeis, porque os pais dão tudo em termos materiais, mas não estão sabendo impor limites por culpa ou medo de serem rejeitados. E assim como um rio precisa de suas margens para correr até o mar, uma criança necessita de regras, valores morais e limites. Quando uma família vem até mim, minha missão é contribuir para que seus filhos cresçam com o corpo e a mente saudáveis e se tornem seres humanos seguros e felizes, capazes de lidar com as questões da vida, de amar e respeitar a si mesmo e ao próximo”, diz.

Doutora Filó convidou os pais a uma reflexão: “Que filho quero criar para o mundo? Se eu quero criar uma pessoa que chegue aos 90 anos feliz e ativa, devo me dedicar à construção desse indivíduo, dia a dia.  Preciso ensinar essa criança a ter autonomia, a ser criativa, proativa, bacana e educada com os outros.”

Ela reforçou a importância dos pais assumirem sua autoridade. “A criança precisa das regras para se sentir segura, protegida e amada. Quando ela é pequena o controle é externo e gradualmente ela aprende a se regular sozinha”. Para a médica, os pais não devem temer que os filhos não os considerem amigos ou passem a não confiar neles. “Pai e mãe precisam assumir seu papel. A permissividade gera crianças doentes, egocêntricas, deprimidas e egoístas. Tudo pode, até um dia em que a criança recebe um não e entra em crise. E nós não queremos isso.”

Muitos pais, no entanto, não entendem a diferença entre autoridade e autoritarismo. “O autoritarismo resulta em crianças heterônomas e dependentes, não críticas, que só obedecem quando um adulto está por perto ditando o que elas têm que fazer. A educação autoritária nega o espaço de liberdade de conflito, o que não é saudável. A criança precisa saber o que é certo e o que é errado de forma clara. Se eu digo para uma criança que ela não pode bater no colega, eu preciso explicar que aquela ação poderá machucá-lo. Quando as regras são construídas junto com as crianças elas fazem mais sentido”, diz.

Segundo doutora Filó, nesse aspecto, a punição ou a recompensa não torna a criança mais obediente, mas a leva ao conformismo. “Pessoas autônomas sabem discernir o que é moralmente correto.” Ela lembra que pais com autoridade devem ser flexíveis – e não permissivos. Isso porque a criança precisa ter a possibilidade de rever, de se desculpar, de reparar seus erros e de se responsabilizar por sua ação, em vez de ser punida.

A pediatra pontuou que é saudável e natural que a criança confronte as regras. Afinal, é nesse espaço de indisciplina que ela irá validá-las e, nesse momento, os pais precisam se manter firmes, sob o risco de perderem autoridade e se desacreditarem aos olhos dos filhos. “Quando os pais são coerentes, eles seguem as regras e os combinados, os filhos acreditam nelas e ninguém quebra isso. Se os pais perdem as rédeas, a criança fica sem limites, se torna dominadora, mas insegura. E se sente desprotegida, desamparada, abandonada.”

E a responsabilidade dos pais não acaba aí. Afinal, crianças tendem a repetir exatamente a conduta, o comportamento e as atitudes dos pais. Por isso, é preciso que haja coerência entre os valores morais ensinados e as ações do dia a dia. “A moralidade deve ser construída, ela não vem pronta. A criança aprende o que vive e se torna aquilo que experimenta”.

Ao concluir, doutora Filó falou sobre o desafio que os pais têm nas mãos. “Educar é esculpir uma pedra bruta, enxergar naquele diamante uma pessoa maravilhosa. Tem uma fase em que as crianças não vão nem querer ouvir vocês mais. É preciso ser perseverante para tirar do outro o que ele tem de melhor. O desenvolvimento não é linear, é uma dinâmica em espiral, em que muitas vezes a gente anda, anda e volta ao mesmo lugar. Só que a cada vez a criança estará mais madura e consciente. E nesse desafio de criar filhos, o amor é a maior arma que temos e a intuição sobre como agir vem do coração e da nossa fé.”

Clique aqui e confira a palestra completa da doutora Filó.